terça-feira, 30 de agosto de 2011

ANDARILHO

                         
                             “para Eduardo Lacerda”

lá, uma trilha estreita
de pedra e chão batido
onde ervas rasteiras se iluminam
na prata que vai caindo

de lua
           em lua

pela imensidão;

um estalo de fogo engolindo o vento
a subir na noite compassado e a contra-
tempo

acorde dissonante e por dentro
que vai te indicando o caminho.

uma roda flamenca:

batidas de pé cantadas na mão
nos toc-ti-toc´s das runas no chão
e uma carta se abrindo no peito
em sangue tinto

e vinho branco
e uvas de mel
e maçãs do destino

ancestrais do destino!
que te abrem o jogo-menino
e te são a rodar

     R  r                   r  R
  o       a               a       o
       d          e           d


pela vida sem casa
sem ida sem vinda
sem plano:

absurdamente
humano


demasiado Cigano.





terça-feira, 23 de agosto de 2011

"NOSSO SARAU"

Caros leitores,

É com muita alegria que retomamos as atividades do Corre Cotia!

Tenho agora a feliz oportunidade de lançar meu livro "Sentimento do Fim do Mundo" neste sarau que praticamente viu surgir a maioria destes poemas há mais de seis anos!

Serão, como sempre, muitas atrações! E para celebrar,dedico-o este "poema-parlenda" que, creio,  reflete o nosso tom - o "brincar revolução" - e invoco a presença de todos neste sábado!


"NOSSO SARAU"

Corre Cotia -

barriga vazia não quebra cipó,
colarinho na mão não mata histrião
mas pode enforcar...

Corre Cotia -

a casa da vó é puxado na tia
e Joana é morta de tanto esperar...

-  Posso jogar?
(pode)

- Ninguém vai roubar?
(...)

Se roubar, não durma no ponto,
pegue a cotia e vá pro Japão...

Mas cuidado, patrão:
cutia tem rastros
e trigo no mar
jamais vai dá pão

Corre Cotia, acorda Cotia! -

a selva inflama
e no Nosso Sarau
queima seu coração



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Letra Envenenada - Edição Agosto/2011

Na praça a edição de agosto do jornal "Conteúdo Independente": o jornal da mudança que só cresce!!!

Leia aqui a versão virtual! Mais abaixo, na íntegra, o "cronto" - ou a "côntica" - da minha coluna "Letra Envenenada" desse mês...



"PRISMA"
   - Deus nos livre, amor, acho melhor pegarmos outra rua...
   - Mas por que, benzinho?
   - Tem um tipo muito estranho lá na frente... Nem é pela cor branquinha, ou o cabelo liso, dourado... É pela roupa, Deus me livre, muito engomada! Olhe só, terno, gravata, até graxa no sapato! Estou com medo, amor.
   - Calma, não devemos julgá-lo assim... Se bem que o sujeito tem uma cara de empresário paulistano nato, criado nos Jardins!
   - Ai, não fala isso, esse pessoal é católico, e você sabe bem como são todos!
   - E o Estado que não faz nada! Cadê todos militares? Absurdo! Está na cara que ele é hetero, olhe o jeitão, deve também ter um daqueles relacionamentos monogâmicos, Deus-do-céu!, de repente até seja pai de família!
   - Que horror! Também não duvido que tenha emprego formal e formação universitária... Ai, será que é doutor? Onde esse mundo vai parar?
   - Meu pai - que o Pai o tenha - era quem estava certo: loiro quando não faz na entrada, borra na saída!
   - Amor, amor, veja os óculos do tipo, ai, intelectual! Não me misturo com esse pessoal... E que maleta de couro é essa nas mãos?! Aposto que tem livros lá dentro... Que lástima!, cada moda que é difícil de entender... O que faremos?
   - Não se desespere, meu bem... Se voltarmos, é capaz dele perceber e não sei o que possa acontecer... Vamos fingir naturalidade, vamos conversar... Isso, sorrindo e conversando como se nada estivesse acontecendo...
   - Não largue a minha mão, por favor... Do que falamos? Ai, ai, está bem do seu lado...
   - Disfarce, sorrindo e conversando... Olhando para mim... Fale qualquer coisa...
   - Eu te amo, sempre te amarei.
   - Está nas nossas costas, não olhe.
   - Ai, nas nossas costas! Não me solte!
   - ...
   - ...
   - Pronto, passou... Por que sua? Está tudo bem agora...
   - Não ria.
   - Você é linda quando fica nervosa, sabia?
   - Pára com isso... Acha que o prejulgamos?
   - Não sei. Pelo sim, pelo não, melhor termos cuidado.
   - Bem que você disse que era pai de família, olhe lá, chegou a esposa com dois filhos! Não olhe assim, seja discreto.
   - Esse bairro não é mais o mesmo. A continuar assim, vamos ter que nos mudar novamente.
   - Fazer o que, amor? Vai ser melhor... Você viu o tipo dela? Típico de mulher erudita que, ai credo!, deve escutar aquela música de louco...
   - Clássica?
   - Isso... Não gosto dessa gente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"SANTA CECÍLIA"
















Você vai passar de carro
e pelo ar condicionado
não chegará
um átomo de odor da rua.

Mesmo que um indigente
e louco
e perebento
estique o lençol mofado
que lhe cobre o machucado

(na certeza delirante
de que presta um importante
serviço ausente),

e macule o vidro da frente
com sangue coagulado
e verdeadas secreções
de pus com água-ardente,

você não lhe dará o agrado
e sua mão ficará esticada
até o próximo sinal fechado.

Ainda que você se sinta mal
e busque no fundo da alma
uma explicação catártica
para o fato social que você
jamais se responsabilizará

ou encontre uma resposta mística
kármica ou econômica
que lhe convença de que cada um
tem o que busca, paga o que deve,

uma mão estará alçada,
o lençol, embolorado,

e um velho estará morrendo
como criança que já vai nascendo
louca,
indigente,
remelenta,
no corredor da Santa Casa
sem qualquer misericórdia.



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